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Neurocirurgia News

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  • 07 abr 2020

Tratamento conservador em casos de dor ciática. Até quando esperar?

Nesta semana foi publicado um artigo muito relevante sobre o tratamento da ciática, a famigerada dor irradiada para a perna causada pela hérnia de disco lombar. O trabalho saiu no New England Journal of Medicine, uma das revistas de maior impacto da área médica, isto reflete a importância do tema.

A ciática tem incidência relativamente alta na população e é uma causa comum de procura por serviços de saúde, impactando negativamente a qualidade de vida de milhares de pessoas. Ela é causada por um desgaste do disco intervertebral em que pode haver fissura da sua parede e "vazamento" do conteúdo interno do disco levando a compressão mecânica ou irritação química da raiz nervosa próxima.

A dor geralmente tem tratamento inicialmente conservador com fisioterapia, medicações, e tratamentos adjuvantes para dor como psicoterapia, acupuntura e bloqueios em clínica de dor. Podem ser realizados ainda nesta fase bloqueios profundos da coluna (bloqueio peridural / foraminal) para um alívio mais rápido e dessensibilização central, sempre associados a fisioterapia, na tentativa de se controlar o processo inflamatório gerado pela fissura aguda do ânulo fibroso do disco. Felizmente, na maioria dos casos a dor é autolimitada e resolvida em 3 meses em cerca de 70% a 90% dos pacientes.

Em alguns casos, porém, a dor pode persistir por tempo mais prolongado e então a cirurgia pode ser necessária. Porém o que temos visto é que o paciente pode facilmente se perder no tempo e “abusar” do tratamento conservador, tolerando frequentemente mais de 6 meses de dor e sofrimento, submetendo-se a múltiplas terapias quase diariamente, quando um procedimento cirúrgico poderia rapidamente trazer alívio duradouro para sua dor. É sabido que quanto maior o tempo de dor, pior o resultado da cirurgia, sendo que em pacientes com mais de 6 meses de dor os resultados podem piorar bastante. Esta piora pode ser atribuída a compressão crônica levando a lesão permanente da microvasculatura e outras estruturas da raiz nervosa, ou alterações da transmissão central dos impulsos da dor.

Voltando ao artigo: resumindo grosseiramente, foram estudados 128 pacientes portadores de ciática com duração entre 4 e 12 meses, importante notar que os pacientes com menos de 4 meses de dor foram excluídos do estudo. Foi comparado então o resultado do tratamento cirúrgico versus tratamento conservador (sem cirurgia). O estudo concluiu que a cirurgia foi superior ao tratamento conservador em reduzir a dor dos pacientes nos períodos de 6 e 12 meses (tempo máximo de seguimento do estudo), sem nenhuma complicação cirúrgica considerada grave, e com incidência de complicações leves de 6%.

Não temos a intenção de banalizar um procedimento cirúrgico, aproveito o gancho do artigo para reforçar e esclarecer que a cirurgia para hérnia de disco não complicada que classicamente causa a ciática não necessita de artrodese ou "parafusos", tem índice de complicação severa muito baixo e alta taxa de sucesso quando bem indicada; é uma cirurgia relativamente barata quando comparada a outros tratamentos cirúrgicos da coluna, e a recuperação é rápida, com alta hospitalar em 24 a 48h do procedimento, sem limitação para deambulação, ou seja, normalmente o paciente já sai andando, não precisa de cadeira de rodas, nem de repouso absoluto. Com o desenvolvimento de técnicas menos invasivas por endoscopia, alguns centros já realizam a cirurgia em regime de hospital dia, onde o paciente pode receber alta ainda no mesmo dia do procedimento.


Dr. Carlos Eduardo Romeu

Sou o Dr. Carlos Eduardo Romeu, médico especialista em Cirurgia Neurológica e da Coluna Vertebral.

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